A tese, em um parágrafo
Existe em Unaí uma empresa que presta serviço de faturamento para prestadores da Unimed, usando sistema próprio. Segundo relatos dos próprios prestadores, ela vem gerando insatisfação recorrente: demora no envio e percentual alto de glosa. Eles reclamam, mas não têm alternativa local.
Nós temos, no grupo, exatamente o conhecimento que falta a essa operação — pessoas que trabalham com faturamento e com autorização e que sabem, do lado de quem audita, por que a glosa acontece. A tese é que dá para prestar esse serviço melhor, cobrando o mesmo, e que o diferencial não é o sistema (que qualquer um assina) e sim o processo de conferência antes do envio.
Decisão 0 — Conflito de interesse
Se este item não for resolvido, nada mais neste documento importa. Ele não é formalidade jurídica: é a condição de existência do negócio.
Somos funcionários da Unimed. As áreas envolvidas são faturamento e autorização — justamente quem autoriza o procedimento e quem audita e glosa a conta. A empresa que estamos discutindo montaria as contas de prestadores e enviaria essas contas para a Unimed.
Isso é conflito de interesse mesmo com conduta impecável. O problema não é o que faríamos, é a posição: estaríamos dos dois lados da mesma conta. E ele se agrava porque:
- Quem autoriza a senha e quem monta a conta seriam as mesmas pessoas — não sobra nenhum controle independente.
- Se um prestador atendido por nós tiver glosa menor que os outros, a leitura externa é imediata, independente do motivo real.
- O dado que usaríamos para dimensionar o negócio está dentro dos sistemas da operadora, e usá-lo para fim particular é problema à parte.
Riscos concretos: demissão por justa causa (CLT art. 482 — concorrência e ato de improbidade), violação de código de conduta e estatuto da cooperativa, questão de LGPD por acesso a dado de beneficiário, e exposição dos próprios prestadores junto à operadora.
O que fazer antes de qualquer outro passo
Montar a empresa no nome de terceiro para esconder a participação. Isso não resolve o conflito, transforma um problema trabalhista em um problema bem pior, e é o caminho que sempre parece o mais fácil no começo.
Regra prática enquanto isso não estiver resolvido: todo número usado neste estudo tem que vir dos prestadores, nunca dos sistemas da Unimed. Se um dado só existe do lado da operadora, ele não entra aqui.
O que já temos e o que falta
Temos
| Ativo | Quem | Por que vale |
|---|---|---|
| Conhecimento de auditoria e glosa | pessoal do faturamento | sabe o motivo real da glosa, não o motivo escrito no retorno |
| Conhecimento de autorização | pessoal da autorização | senha, validade, o que precisa estar anexado — origem de boa parte da glosa em oncologia |
| Tecnologia, dados e automação | Mateus | conferência automática antes do envio, painel de glosa, validação de XML TISS |
| Conhecimento do mercado local | todos | sabemos quem são os prestadores e qual é a dor deles |
Falta
Experiência de faturamento pelo lado do prestador. Conhecer o lado da operadora é enorme, mas não é a mesma coisa: montar a conta, operar o sistema do prestador, lidar com prontuário incompleto e cobrar do médico o que falta é outro ofício. Precisa de pelo menos uma pessoa com essa vivência, ou de consultoria para montar o processo.
Sistema — a clínica não tem nenhum hoje (seção 05). Capital de giro (seção 08). Estrutura jurídica (seção 09).
Diligência — os números que faltam
Nada é decidido sem isto. Sugestão: cada um assume um bloco e traz o dado.
As marcações abaixo ficam salvas só no seu navegador — cada pessoa vê a sua.
Bloco A · fonte: a própria clínica de oncologiaSe a taxa de glosa da clínica não for pelo menos uns 3 a 4 pontos percentuais acima do que conseguimos entregar, não existe negócio: o ganho não paga a troca e o risco.
O sistema
O que está descartado
Desenvolver do zero. Não por dificuldade de programar, mas por manutenção perpétua e por dado licenciado: o padrão TISS é versionado pela ANS e cada versão exige nova homologação com cada operadora; Brasíndice e Simpro são bases comerciais pagas, atualizadas várias vezes por mês; a CBHPM é licenciada pela AMB; o SIGTAP muda mensalmente. Isso é produto com time dedicado, não projeto paralelo.
A ideia de usar o mesmo sistema da empresa atual
Faz sentido à primeira vista, mas tem três armadilhas:
- A licença provavelmente é dela, não da clínica. O fornecedor pode ter exclusividade regional ou simplesmente não querer vender para um concorrente direto do cliente dele.
- Se o sistema é bom e o serviço é ruim, o problema é processo — o que é ótimo para nós, porque significa que o diferencial é replicável por gente melhor. Mas então não há vantagem nenhuma em usar o mesmo sistema.
- Se o sistema é ruim, copiar o sistema é copiar o problema.
Vale descobrir qual é, mas como informação de mercado — não como decisão tomada.
O checklist que realmente filtra um sistema de oncologia
Esta lista elimina a maioria dos candidatos. Qualquer demonstração tem que provar item por item:
Sistema de gestão de clínica genérico costuma reprovar nos dois primeiros itens, o que joga o controle de protocolo para planilha — que é exatamente o que gera a glosa que estamos prometendo evitar.
Para orçar e demonstrar: Philips Tasy e MV (porte hospitalar, provavelmente caros e pesados demais para começar), Benner Saúde, e os sistemas de gestão de clínica tipo Feegow, Amplimed e Ninsaúde — estes últimos só entram se passarem no teste do módulo oncológico. Vale procurar também fornecedores especializados em oncologia, que existem e são o encaixe mais provável. Para SUS, as ferramentas do DATASUS (BPA-Mag, APAC) são gratuitas.
Onde nós devemos construir
Não o sistema — a camada de conferência em cima dele. É o mesmo desenho da auditoria de PTU Material/Medicamento que já roda hoje: exporta, cruza com as regras, aponta o que vai glosar antes do lote sair.
- Dose × superfície corporal × protocolo
- Preço contra Brasíndice e Simpro antes do envio
- Guia sem autorização, sem TUSS válido, com quantidade incompatível
- Validação do XML contra o XSD antes de enviar
- Painel de glosa por operadora, motivo, médico e procedimento — para atacar causa raiz, não guia a guia
- Conciliação automática de pagamento
É isso que sustenta o argumento comercial. Vale lembrar o que a auditoria de PTU já mostrou na prática: a perda se concentra em pouquíssimos códigos, quase todos oncológicos de alto custo. Corrigir cinco cadastros resolveu mais que revisar centenas de linhas.
Estrutura e custos
Papéis
| Papel | Responsabilidade | Observação |
|---|---|---|
| Faturamento | montar e enviar a conta | núcleo da operação |
| Autorização | senha, validade, documentação | evita a glosa na origem |
| Auditoria e conferência | revisar antes do envio, recorrer glosa | o diferencial |
| Tecnologia | sistema, integração, painéis, LGPD | Mateus |
| Comercial e relacionamento | prospectar e segurar cliente | costuma ficar órfão — e não pode |
Custos fixos a orçar
Tributação
Simples Nacional. Serviço de apoio administrativo cai no Anexo III se o Fator R (folha ÷ receita) for igual ou maior que 28%, com alíquota inicial de 6%; abaixo disso vai para o Anexo V, que começa em 15,5%. Como é um negócio intensivo em gente, o normal é ficar no Anexo III — mas isso precisa ser confirmado com contador antes de precificar, porque a diferença de alíquota come a margem inteira. O CNAE também é conversa de contador (candidatos: 8211-3/00 ou 8299-7/99).
Modelo comercial
Cobrar percentual sobre o recebido, não sobre o faturado. Sobre o faturado, ganhamos mesmo quando o cliente não recebe — que é exatamente a crítica que se faz hoje à empresa atual. Sobre o recebido, nosso incentivo é o mesmo do cliente. Isso, sozinho, já é argumento de venda.
Faixa praticada no mercado: 3% a 8%, conforme complexidade e volume. Oncologia tem ticket alto, então o percentual tende ao piso e o valor absoluto continua bom. Alternativa: fixo mensal mais variável sobre glosa recuperada, o que dá previsibilidade para os dois lados.
Como calcular
Receita mensal = faturamento recebido do cliente × % Custo mensal = folha × 1,75 + sistema + tabelas + contabilidade + estrutura Margem = receita − custo − imposto Ponto de equilíbrio = custo fixo ÷ (% × faturamento médio por cliente)
O cenário abaixo não é projeção. Os valores foram escolhidos só para mostrar a mecânica da conta — eles só viram decisão depois que a diligência da seção 04 estiver preenchida com dado real.
| Cenário ilustrativo | Hipótese |
|---|---|
| Clientes | 3 prestadores |
| Faturamento somado recebido | R$ 1.200.000/mês |
| Nosso percentual | 4% |
| Receita | R$ 48.000/mês |
| Equipe | 4 faturistas + 1 coordenação |
| Custo de folha (×1,75) | − R$ 30.600/mês |
| Sistema, tabelas, contabilidade, estrutura | − R$ 8.000/mês |
| Imposto (Anexo III) | − R$ 3.400/mês |
| Sobra | ~R$ 6.000/mês |
O que esse exercício mostra não é o resultado — é a sensibilidade. Com três clientes a margem é fina e qualquer erro come tudo. O negócio só fica interessante com escala ou com percentual maior, e a conta muda completamente conforme o faturamento real dos prestadores. Por isso a seção 04 vem antes desta.
Capital de giro
É o item que mais mata esse tipo de negócio. Se cobramos sobre o recebido e o ciclo de recebimento do prestador é de 60 a 90 dias, operamos dois a três meses pagando folha antes do primeiro centavo entrar. E não dá para começar com meia equipe: se atrasarmos um lote, a clínica fica um mês sem receber e o contrato acaba ali — com a folha já paga.
Reserva mínima de 4 meses de custo fixo, em caixa, antes de assinar o primeiro contrato. Não é conservadorismo — é o que separa esse negócio de virar dívida.
Se essa reserva não existir hoje, a conclusão não é "não fazer". É "não entrar pela porta grande" — seção 10.
Jurídico, contrato e LGPD
Como entrar com risco baixo
Não tentar ganhar o contrato inteiro de cara. Duas portas menores:
Porta 1 · Recuperação de glosa retroativa
Remunerada por êxito, percentual sobre o que recuperarmos (20% a 30% é praticado). Risco zero para o cliente. Para nós é a chance de entrar na operação, ver o sistema por dentro e medir a bagunça real — sendo pagos por isso. Se recuperarmos, a prova de valor está feita. Atenção ao prazo de recurso: o dinheiro está nas contas que ainda dá para recorrer.
Porta 2 · Só a camada de conferência
O prestador continua com quem quiser e nós entregamos a auditoria antes do envio e o painel de glosa. Negócio menor, mas não exige equipe, não exige capital de giro, e coloca a gente dentro da operação com o dado na mão para quando fizer sentido crescer.
As duas portas têm a mesma virtude: dá para testar a tese sem largar o emprego e sem fazer dívida.
Riscos
| Risco | Grav. | Mitigação |
|---|---|---|
| Conflito de interesse com a Unimed | Alta | Decisão 0 — resolver antes de tudo |
| Faltar vivência do lado prestador | Alta | contratar, ou consultoria para desenhar o processo |
| Capital de giro insuficiente na rampa | Alta | reserva de 4 meses, ou entrar pela porta pequena |
| Cliente único | Alta | não montar estrutura para um cliente só |
| Sistema reprovar no módulo oncológico | Média | checklist da seção 05 na demonstração, sem exceção |
| Concorrente reagir baixando preço | Média | competir por resultado (glosa), não por preço |
| Passivo herdado de glosa antiga | Média | contrato deixando claro que não respondemos por conta anterior ao corte |
| Reclamar não é trocar | Média | confirmar intenção real de troca antes de dimensionar equipe |
Próximos passos
| # | Ação | Dono |
|---|---|---|
| 1 | Ler contrato de trabalho e código de conduta (Decisão 0) | cada um |
| 2 | Decidir o caminho do conflito de interesse antes de seguir | grupo |
| 3 | Conversa de diagnóstico com a clínica e coleta dos números da seção 04 | — |
| 4 | Levantar o contrato dela com a empresa atual (prazo, multa, dados) | — |
| 5 | Confirmar quantos prestadores trocariam de fato | — |
| 6 | Pedir demonstração e proposta de 3 sistemas, aplicando o checklist da seção 05 | — |
| 7 | Refazer a conta da seção 07 com número real | — |
| 8 | Decidir: porta grande, porta pequena, ou não fazer | grupo |