Documento de trabalho · 25 ago 2026 Em avaliação

Faturamento Médico em Unaí

Estudo para decidir, em grupo, se vale montar uma empresa de faturamento e gestão de conta médica na cidade, tendo uma clínica de oncologia como primeiro cliente e os demais prestadores insatisfeitos com a empresa que atende hoje como mercado seguinte. Isto não é uma proposta de que devemos fazer — é o levantamento do que precisa ser respondido antes de decidir.

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A tese, em um parágrafo

Existe em Unaí uma empresa que presta serviço de faturamento para prestadores da Unimed, usando sistema próprio. Segundo relatos dos próprios prestadores, ela vem gerando insatisfação recorrente: demora no envio e percentual alto de glosa. Eles reclamam, mas não têm alternativa local.

Nós temos, no grupo, exatamente o conhecimento que falta a essa operação — pessoas que trabalham com faturamento e com autorização e que sabem, do lado de quem audita, por que a glosa acontece. A tese é que dá para prestar esse serviço melhor, cobrando o mesmo, e que o diferencial não é o sistema (que qualquer um assina) e sim o processo de conferência antes do envio.

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Decisão 0 — Conflito de interesse

Vem antes de todo o resto

Se este item não for resolvido, nada mais neste documento importa. Ele não é formalidade jurídica: é a condição de existência do negócio.

Somos funcionários da Unimed. As áreas envolvidas são faturamento e autorização — justamente quem autoriza o procedimento e quem audita e glosa a conta. A empresa que estamos discutindo montaria as contas de prestadores e enviaria essas contas para a Unimed.

Isso é conflito de interesse mesmo com conduta impecável. O problema não é o que faríamos, é a posição: estaríamos dos dois lados da mesma conta. E ele se agrava porque:

  • Quem autoriza a senha e quem monta a conta seriam as mesmas pessoas — não sobra nenhum controle independente.
  • Se um prestador atendido por nós tiver glosa menor que os outros, a leitura externa é imediata, independente do motivo real.
  • O dado que usaríamos para dimensionar o negócio está dentro dos sistemas da operadora, e usá-lo para fim particular é problema à parte.

Riscos concretos: demissão por justa causa (CLT art. 482 — concorrência e ato de improbidade), violação de código de conduta e estatuto da cooperativa, questão de LGPD por acesso a dado de beneficiário, e exposição dos próprios prestadores junto à operadora.

O que fazer antes de qualquer outro passo

Descartado desde já

Montar a empresa no nome de terceiro para esconder a participação. Isso não resolve o conflito, transforma um problema trabalhista em um problema bem pior, e é o caminho que sempre parece o mais fácil no começo.

Regra prática enquanto isso não estiver resolvido: todo número usado neste estudo tem que vir dos prestadores, nunca dos sistemas da Unimed. Se um dado só existe do lado da operadora, ele não entra aqui.

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O que já temos e o que falta

Temos

AtivoQuemPor que vale
Conhecimento de auditoria e glosapessoal do faturamentosabe o motivo real da glosa, não o motivo escrito no retorno
Conhecimento de autorizaçãopessoal da autorizaçãosenha, validade, o que precisa estar anexado — origem de boa parte da glosa em oncologia
Tecnologia, dados e automaçãoMateusconferência automática antes do envio, painel de glosa, validação de XML TISS
Conhecimento do mercado localtodossabemos quem são os prestadores e qual é a dor deles

Falta

Experiência de faturamento pelo lado do prestador. Conhecer o lado da operadora é enorme, mas não é a mesma coisa: montar a conta, operar o sistema do prestador, lidar com prontuário incompleto e cobrar do médico o que falta é outro ofício. Precisa de pelo menos uma pessoa com essa vivência, ou de consultoria para montar o processo.

Sistema — a clínica não tem nenhum hoje (seção 05). Capital de giro (seção 08). Estrutura jurídica (seção 09).

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Diligência — os números que faltam

Nada é decidido sem isto. Sugestão: cada um assume um bloco e traz o dado.

As marcações abaixo ficam salvas só no seu navegador — cada pessoa vê a sua.

Bloco A · fonte: a própria clínica de oncologia
Bloco B · fonte: o contrato atual da clínica
Bloco C · fonte: os prestadores

Se a taxa de glosa da clínica não for pelo menos uns 3 a 4 pontos percentuais acima do que conseguimos entregar, não existe negócio: o ganho não paga a troca e o risco.

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O sistema

O que está descartado

Desenvolver do zero. Não por dificuldade de programar, mas por manutenção perpétua e por dado licenciado: o padrão TISS é versionado pela ANS e cada versão exige nova homologação com cada operadora; Brasíndice e Simpro são bases comerciais pagas, atualizadas várias vezes por mês; a CBHPM é licenciada pela AMB; o SIGTAP muda mensalmente. Isso é produto com time dedicado, não projeto paralelo.

A ideia de usar o mesmo sistema da empresa atual

Faz sentido à primeira vista, mas tem três armadilhas:

  1. A licença provavelmente é dela, não da clínica. O fornecedor pode ter exclusividade regional ou simplesmente não querer vender para um concorrente direto do cliente dele.
  2. Se o sistema é bom e o serviço é ruim, o problema é processo — o que é ótimo para nós, porque significa que o diferencial é replicável por gente melhor. Mas então não há vantagem nenhuma em usar o mesmo sistema.
  3. Se o sistema é ruim, copiar o sistema é copiar o problema.

Vale descobrir qual é, mas como informação de mercado — não como decisão tomada.

O checklist que realmente filtra um sistema de oncologia

Esta lista elimina a maioria dos candidatos. Qualquer demonstração tem que provar item por item:

Sistema de gestão de clínica genérico costuma reprovar nos dois primeiros itens, o que joga o controle de protocolo para planilha — que é exatamente o que gera a glosa que estamos prometendo evitar.

Shortlist, não recomendação

Para orçar e demonstrar: Philips Tasy e MV (porte hospitalar, provavelmente caros e pesados demais para começar), Benner Saúde, e os sistemas de gestão de clínica tipo Feegow, Amplimed e Ninsaúde — estes últimos só entram se passarem no teste do módulo oncológico. Vale procurar também fornecedores especializados em oncologia, que existem e são o encaixe mais provável. Para SUS, as ferramentas do DATASUS (BPA-Mag, APAC) são gratuitas.

Onde nós devemos construir

Não o sistema — a camada de conferência em cima dele. É o mesmo desenho da auditoria de PTU Material/Medicamento que já roda hoje: exporta, cruza com as regras, aponta o que vai glosar antes do lote sair.

  • Dose × superfície corporal × protocolo
  • Preço contra Brasíndice e Simpro antes do envio
  • Guia sem autorização, sem TUSS válido, com quantidade incompatível
  • Validação do XML contra o XSD antes de enviar
  • Painel de glosa por operadora, motivo, médico e procedimento — para atacar causa raiz, não guia a guia
  • Conciliação automática de pagamento

É isso que sustenta o argumento comercial. Vale lembrar o que a auditoria de PTU já mostrou na prática: a perda se concentra em pouquíssimos códigos, quase todos oncológicos de alto custo. Corrigir cinco cadastros resolveu mais que revisar centenas de linhas.

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Estrutura e custos

Papéis

PapelResponsabilidadeObservação
Faturamentomontar e enviar a contanúcleo da operação
Autorizaçãosenha, validade, documentaçãoevita a glosa na origem
Auditoria e conferênciarevisar antes do envio, recorrer glosao diferencial
Tecnologiasistema, integração, painéis, LGPDMateus
Comercial e relacionamentoprospectar e segurar clientecostuma ficar órfão — e não pode

Custos fixos a orçar

Tributação

Simples Nacional. Serviço de apoio administrativo cai no Anexo III se o Fator R (folha ÷ receita) for igual ou maior que 28%, com alíquota inicial de 6%; abaixo disso vai para o Anexo V, que começa em 15,5%. Como é um negócio intensivo em gente, o normal é ficar no Anexo III — mas isso precisa ser confirmado com contador antes de precificar, porque a diferença de alíquota come a margem inteira. O CNAE também é conversa de contador (candidatos: 8211-3/00 ou 8299-7/99).

07

Modelo comercial

Cobrar percentual sobre o recebido, não sobre o faturado. Sobre o faturado, ganhamos mesmo quando o cliente não recebe — que é exatamente a crítica que se faz hoje à empresa atual. Sobre o recebido, nosso incentivo é o mesmo do cliente. Isso, sozinho, já é argumento de venda.

Faixa praticada no mercado: 3% a 8%, conforme complexidade e volume. Oncologia tem ticket alto, então o percentual tende ao piso e o valor absoluto continua bom. Alternativa: fixo mensal mais variável sobre glosa recuperada, o que dá previsibilidade para os dois lados.

Como calcular

Receita mensal      = faturamento recebido do cliente × %
Custo mensal        = folha × 1,75 + sistema + tabelas + contabilidade + estrutura
Margem              = receita − custo − imposto
Ponto de equilíbrio = custo fixo ÷ (% × faturamento médio por cliente)
Atenção · números inventados

O cenário abaixo não é projeção. Os valores foram escolhidos só para mostrar a mecânica da conta — eles só viram decisão depois que a diligência da seção 04 estiver preenchida com dado real.

Cenário ilustrativoHipótese
Clientes3 prestadores
Faturamento somado recebidoR$ 1.200.000/mês
Nosso percentual4%
ReceitaR$ 48.000/mês
Equipe4 faturistas + 1 coordenação
Custo de folha (×1,75)− R$ 30.600/mês
Sistema, tabelas, contabilidade, estrutura− R$ 8.000/mês
Imposto (Anexo III)− R$ 3.400/mês
Sobra~R$ 6.000/mês

O que esse exercício mostra não é o resultado — é a sensibilidade. Com três clientes a margem é fina e qualquer erro come tudo. O negócio só fica interessante com escala ou com percentual maior, e a conta muda completamente conforme o faturamento real dos prestadores. Por isso a seção 04 vem antes desta.

08

Capital de giro

É o item que mais mata esse tipo de negócio. Se cobramos sobre o recebido e o ciclo de recebimento do prestador é de 60 a 90 dias, operamos dois a três meses pagando folha antes do primeiro centavo entrar. E não dá para começar com meia equipe: se atrasarmos um lote, a clínica fica um mês sem receber e o contrato acaba ali — com a folha já paga.

Regra de entrada

Reserva mínima de 4 meses de custo fixo, em caixa, antes de assinar o primeiro contrato. Não é conservadorismo — é o que separa esse negócio de virar dívida.

Se essa reserva não existir hoje, a conclusão não é "não fazer". É "não entrar pela porta grande" — seção 10.

09

Jurídico, contrato e LGPD

10

Como entrar com risco baixo

Não tentar ganhar o contrato inteiro de cara. Duas portas menores:

Porta 1 · Recuperação de glosa retroativa

Remunerada por êxito, percentual sobre o que recuperarmos (20% a 30% é praticado). Risco zero para o cliente. Para nós é a chance de entrar na operação, ver o sistema por dentro e medir a bagunça real — sendo pagos por isso. Se recuperarmos, a prova de valor está feita. Atenção ao prazo de recurso: o dinheiro está nas contas que ainda dá para recorrer.

Porta 2 · Só a camada de conferência

O prestador continua com quem quiser e nós entregamos a auditoria antes do envio e o painel de glosa. Negócio menor, mas não exige equipe, não exige capital de giro, e coloca a gente dentro da operação com o dado na mão para quando fizer sentido crescer.

As duas portas têm a mesma virtude: dá para testar a tese sem largar o emprego e sem fazer dívida.

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Riscos

RiscoGrav.Mitigação
Conflito de interesse com a UnimedAltaDecisão 0 — resolver antes de tudo
Faltar vivência do lado prestadorAltacontratar, ou consultoria para desenhar o processo
Capital de giro insuficiente na rampaAltareserva de 4 meses, ou entrar pela porta pequena
Cliente únicoAltanão montar estrutura para um cliente só
Sistema reprovar no módulo oncológicoMédiachecklist da seção 05 na demonstração, sem exceção
Concorrente reagir baixando preçoMédiacompetir por resultado (glosa), não por preço
Passivo herdado de glosa antigaMédiacontrato deixando claro que não respondemos por conta anterior ao corte
Reclamar não é trocarMédiaconfirmar intenção real de troca antes de dimensionar equipe
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Próximos passos

#AçãoDono
1Ler contrato de trabalho e código de conduta (Decisão 0)cada um
2Decidir o caminho do conflito de interesse antes de seguirgrupo
3Conversa de diagnóstico com a clínica e coleta dos números da seção 04
4Levantar o contrato dela com a empresa atual (prazo, multa, dados)
5Confirmar quantos prestadores trocariam de fato
6Pedir demonstração e proposta de 3 sistemas, aplicando o checklist da seção 05
7Refazer a conta da seção 07 com número real
8Decidir: porta grande, porta pequena, ou não fazergrupo